segunda-feira, 24 de julho de 2017

CARTA ABERTA ÀQUELES QUE DEVO A MINHA VIDA; OS MEUS PAIS

Eu venho por esse documento tentar alcançar um único objetivo, do qual, no fim das contas, já desconfio de que não conseguirei como gostaria. No entanto, tentarei mesmo assim.

O que quero aqui, Orlando e Valéria, é expressar toda a gratidão por tudo que são pra mim, desde a minha primeira respiração. Hoje, depois de estar um pouco mais velho, quase com meus trinta anos, vejo o que alguns de nós levam a vida toda pra ver: nós crescemos sem perceber.

         Eu, por exemplo, cresci sem perceber o amor incondicional que vocês sentem por mim e sempre sentiram. Cresci sem perceber que o “não” que vocês falaram para me ensinar a ter limites ou respeito rasgava o coração, principalmente se eu ficasse triste, pois aí é que vocês morriam por dentro. Cresci sem perceber que vocês parariam o mundo se pudessem, só pra me agradar. Cresci dessa vez não sem perceber, mas sim sem saber, quantas vezes vocês foram pacientes ao trocarem as minhas fraldas, ao levantarem no meio da noite só pra me fazer parar de chorar, a paciência necessária para me ensinar a falar, andar, a contar, as cores, etc. A dedicação a sanar todas as incontáveis dúvidas, perguntas e questionamentos que eu incansavelmente fazia durante a minha infância (e talvez ainda continue fazendo, rs).

            Mais tarde, a enfrentar todas as frustrações na escola, no futebol, entre amigos, inseguranças e medos frente aos desafios que se seguiram. E durante a aventura (talvez loucura) de ir completamente sozinho para morar tão longe de casa perseguindo um sonho, ficarem horas comigo no telefone todos os dias durante longas noites para que eu pudesse me sentir mais seguro e menos solitário. Com o coração dilacerado, me verem chorar copiosamente, dessa vez já um jovem adulto, por estar mais uma vez voando para longe de casa. Aguentarem firme e não me pedirem pra ficar e, ainda assim, serem doces o suficiente pra me deixarem saber que eu poderia ficar (ou voltar) quando quisesse. Sofrerem calados com as minhas más escolhas e se questionarem em até que ponto deveriam intervir ou me deixar que eu desse os próprios passos rumo aos próprios erros e acertos.



Vocês abraçaram os meus sonhos e acreditaram mais em mim do que qualquer outra pessoa jamais faria, possivelmente até mais do que eu mesmo. Deram-me o direito de tentar, o direito de ser feliz. E eu nem imagino o quanto isso seja difícil. Jamais conseguirei. É muita dedicação. É muito amor. Tem que ser!
           
         O mais incrível é que vocês nunca fizeram nada disso esperando algo em troca. Jamais! Tudo foi feito pelo mais puro e verdadeiro amor do qual eu sinto um misto de alegria e constrangimento. Alegria essa por saber que ninguém no mundo poderia ter mais sorte do que eu. Ninguém pode ser amado tão intensamente como fui durante todos os meus dias vividos até aqui. E constrangimento pelo mesmo motivo. Constrangimento também por saber que, por mais que eu me esforce, não conseguirei demonstrar tudo aquilo que vocês são pra mim. A referência, o porto seguro e o combustível necessário para que eu queira sempre seguir em frente.

        Já morei longe de casa algumas vezes. Vocês dirão MUITAS vezes, se perguntados. Afinal, já estive e estou muito mais tempo e em bem mais ocasiões do que vocês gostariam e até imaginariam me ver longe. E talvez não saibam, mas o maior motivo de eu ter essa coragem toda pra “voar”, como você, mãe, costuma a dizer, seja justamente esse amor. É por saber que vocês estão aí pra mim, me esperando de braços abertos sempre que eu quiser voltar, que tenho forças pra ir desbravar o mundo e tentar merecer o meu lugar nele. Paradoxalmente, eu só me afasto com essa frequência porque vocês me amam nessa intensidade.



         Por fim, sei que a cada dia que passa vocês perdem um pouquinho mais da energia de outrora. Sei que vão envelhecendo e isso requer cada vez mais paciência daqueles que estão à volta. Bom, é verdade, talvez isso aconteça mesmo. Mas saibam que não importa. Não prometo ser perfeito ou paciente como foram pra mim durante todo o tempo que precisei, não sou como vocês e não tenho a audácia de tentar ser, mas prometo que estarei sempre aqui dando o meu melhor. Prometo que vocês jamais envelhecerão sozinhos e que sempre terão um cara jovem (ou já nem tanto assim, né?!) pra cuidar e tentar devolver todo o carinho e paciência que um dia tiveram pra me ensinar tudo que sabiam nessa vida.

       Minha gratidão, minha admiração e meu amor sempre estarão presentes dentro de mim, mesmo que às vezes eu tenha dificuldade pra dizê-los. Hoje, nessa carta, eu consegui externar um pouco disso. E que bom! Era o mínimo. Afinal, vocês merecem ser lembrados por mim desses sentimentos e eu tenho o dever de fazê-lo. E sejamos francos, quem não gosta de receber amor, não é?!

     Obrigado por terem sido muito mais do que acham que foram. Vocês são a minha melhor definição de amor. Amo vocês!

       Ah, e se alguém resolveu ler, chegou até o fim e está se perguntando “por que uma carta aberta?” eu devolvo a pergunta primeiro com uma outra pergunta: "por que não aberta?" e, por fim, com uma resposta que é bem simples: o amor pode e deve ser gritado para o mundo todo escutar. Afinal, tem coisa melhor que espalhar esse sentimento? 

Ass: Um filho apaixonado e que hoje percebe. 

3 comentários:

  1. "...Conheci outras versões da saudade. Como nós, ela pode ser dura. Mas juro que tem suas fraquezas. Aliás, ela pode ser linda..."
    - Uma vez fui viajar e não voltei -
    Você é reflexo de todo esse amor!
    Voaaaaaaaa.
    NY

    ResponderExcluir
  2. Foi um mergulho incrível, amigo. Difícil é não se emocionar com tantas verdades que pude "ver".
    Como eu sempre digo: "Você é o cara".

    ResponderExcluir
  3. Muito bom. A violência, o absurdo e o desamor se espalha no mundo com tanta velocidade e força que eu acredito ser muito importante ver expressões de amor de forma aberta mesmo. Parabéns e obrigado. Seus pais são uma maravilha mesmo.

    ResponderExcluir