Era só mais um
dia. Havia de ser. O homem caminhava na calçada gelada que refletia as
taciturnas luzes dos postes em poças de água escura. Esgoto costumava a ser o
melhor nome. O caminhar é ligeiramente apressado e a pasta e o cigarro em cada
uma das mãos só poderiam significar o que todo mundo já sabia; ele era um homem
de negócios.
Os
becos escuros não o assustavam. Não mais. Talvez por ter passado noites demais
pelas calçadas que os precedem. Ou talvez porque não soubesse a sedução perigosa
que esses pequenos universos atraem para si. Não havia segurança, ele sabia. Mas
nunca se sentiu seguro, de qualquer forma. Seu chapéu, sobretudo e sua face
austera eram carcaça suficiente para desencorajar a aproximação aproveitadora
de qualquer outro. Era seu escudo contra uma sociedade falida. Mas era mais que
isso. Era seu disfarce de si mesmo. A comprovação miserável que falhou na
missão de se tornar quem sempre deveria ter sido. Engolido pela (in)felicidade
do tudo e sucumbido pelos valores que nunca desejou ter.
Era
somente 22 de outubro. Não havia um motivo especial, mas o drink que pensava
repetidamente em tomar era outra de suas ferramentas para não submeter-se à
desgraça que assola qualquer ser pensante. Era isso mesmo? Ele esperava de ter
razão. “Um brinde à liberdade”. Era assim que encarava relacionamentos baratos
em estruturas desgastadas. Era assim que enfrentava os demônios de Sartre; os
outros.
A
porta do bar havia o mesmo sino desde quando pudera se lembrar. Era o som da
vitória da melancolia da alma sobre a coragem de se encarar no espelho antes de
dormir. De alguma maneira ele sabia que aquilo que o libertava, também o envenenava.
Ele já pensou em escapar de tudo que lutou para ter, é claro. – “Quem nunca?”,
pensava. Gostava de imaginar que todos eram iguais a ele, pelo menos em algum
momento. O pensamento causava conforto e repulsa.
O
cheiro da madeira foi tardiamente percebido. Um aroma preciso e determinado.
Era uma experiência olfativa corriqueira e, até certo ponto, apareceria em
melhor hora que o sorriso desconhecido e desesperado ao lado que,
insistentemente, puxava assuntos vazios para que pudesse discursar sobre si
mesmo na primeira oportunidade. – “É isso que fazemos”, ele sabia. Ouvimos os
outros com o intuito de que chegue a nossa vez de falar. Por isso estamos
condenados. Condenados a nos tornarmos uma borrada projeção de nós mesmos.
Era só mais um 22 de outubro. Afinal, todos os dias eram 22 de outubro. Que
diferença fazia? Que diferença sempre fizera? Ele sabia das amarras invisíveis de si.
Conhecia boa parte delas. Ele, talvez, as odiasse. Ele, possivelmente, amava odiá-las. Mas, sem dúvidas, ele as amava. Era tarde demais para que não as amasse Elas eram tudo aquilo que restou. Elas eram a melhor definição de seu sucesso. Mas só
segundo os outros.

