Ela se foi. Pela noite, pois ninguém podia ver. Ela se foi às 3h, no horário que foi ensinada a sentir o terror de ser.
Será que escutaram sua alma chorar vazia? Ela nunca soube, o som de madeira antiga arranhando na sua memória sempre a ensurdecia.
Por além das fronteiras daquela cidade encontrou a solidão que nunca procurou. Ela abraçou o inferno. Ela rezou.
O lúgubre a beijava com o sabor amargo do desespero. Aos oito fugiu um mês depois de apodrecer o corpo por inteiro. O carinho doce de seu pai a infectara interrompendo seu sono. envenenou sua alma enquanto a aquecia do frio de outono.
Nunca mais conseguiu se olhar. Mesmo quando o espelho apontava uma mulher, ela aprendera a não acreditar. Nem confiar. Aquela imagem que via não sabia chorar.
Mergulhou onde queria. Mergulhou em um apanhado de agulhas vazias. Beijava seus demônios em viagens de agonia. Em todas ela o via. Revisitava o mesmo quarto da noite que sucumbia. Ela provava repetidamente a pele fria.
Encontrou a saida que sempre procurou. Um último abraço em si. Ela se desculpou pelo que se causou. Nada mais poderá ferir. Nada pode machucar uma existência interrompida. A última mensagem ficará escrita em uma parede perdida: “Você me exterminou muito antes que eu tirasse a minha vida”.

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