Eu venho por
esse documento tentar alcançar um único objetivo, do qual, no fim das contas,
já desconfio de que não conseguirei como gostaria. No entanto, tentarei mesmo
assim.
O que quero
aqui, Orlando e Valéria, é expressar toda a gratidão por tudo que são pra mim,
desde a minha primeira respiração. Hoje, depois de estar um pouco mais velho, quase
com meus trinta anos, vejo o que alguns de nós levam a vida toda pra ver: nós
crescemos sem perceber.
Eu,
por exemplo, cresci sem perceber o amor incondicional que vocês sentem por mim
e sempre sentiram. Cresci sem perceber que o “não” que vocês falaram para me
ensinar a ter limites ou respeito rasgava o coração, principalmente se eu
ficasse triste, pois aí é que vocês morriam por dentro. Cresci sem perceber que
vocês parariam o mundo se pudessem, só pra me agradar. Cresci dessa vez não sem
perceber, mas sim sem saber, quantas vezes vocês foram pacientes ao trocarem as
minhas fraldas, ao levantarem no meio da noite só pra me fazer parar de chorar,
a paciência necessária para me ensinar a falar, andar, a contar, as cores, etc.
A dedicação a sanar todas as incontáveis dúvidas, perguntas e questionamentos que
eu incansavelmente fazia durante a minha infância (e talvez ainda continue
fazendo, rs).
Mais
tarde, a enfrentar todas as frustrações na escola, no futebol, entre amigos,
inseguranças e medos frente aos desafios que se seguiram. E durante a aventura
(talvez loucura) de ir completamente sozinho para morar tão longe de casa perseguindo
um sonho, ficarem horas comigo no telefone todos os dias durante longas noites para
que eu pudesse me sentir mais seguro e menos solitário. Com o coração
dilacerado, me verem chorar copiosamente, dessa vez já um jovem adulto, por
estar mais uma vez voando para longe de casa. Aguentarem firme e não me pedirem
pra ficar e, ainda assim, serem doces o suficiente pra me deixarem saber que eu
poderia ficar (ou voltar) quando quisesse. Sofrerem calados com as minhas más
escolhas e se questionarem em até que ponto deveriam intervir ou me deixar que
eu desse os próprios passos rumo aos próprios erros e acertos.
Vocês abraçaram
os meus sonhos e acreditaram mais em mim do que qualquer outra pessoa jamais
faria, possivelmente até mais do que eu mesmo. Deram-me o direito de tentar, o
direito de ser feliz. E eu nem imagino o quanto isso seja difícil. Jamais
conseguirei. É muita dedicação. É muito amor. Tem que ser!
O
mais incrível é que vocês nunca fizeram nada disso esperando algo em troca.
Jamais! Tudo foi feito pelo mais puro e verdadeiro amor do qual eu sinto um
misto de alegria e constrangimento. Alegria essa por saber que ninguém no mundo
poderia ter mais sorte do que eu. Ninguém pode ser amado tão intensamente como
fui durante todos os meus dias vividos até aqui. E constrangimento pelo mesmo
motivo. Constrangimento também por saber que, por mais que eu me esforce, não
conseguirei demonstrar tudo aquilo que vocês são pra mim. A referência, o porto
seguro e o combustível necessário para que eu queira sempre seguir em frente.
Já
morei longe de casa algumas vezes. Vocês dirão MUITAS vezes, se perguntados.
Afinal, já estive e estou muito mais tempo e em bem mais ocasiões do que vocês
gostariam e até imaginariam me ver longe. E talvez não saibam, mas o maior
motivo de eu ter essa coragem toda pra “voar”, como você, mãe, costuma a dizer,
seja justamente esse amor. É por saber que vocês estão aí pra mim, me esperando
de braços abertos sempre que eu quiser voltar, que tenho forças pra ir desbravar
o mundo e tentar merecer o meu lugar nele. Paradoxalmente, eu só me afasto com
essa frequência porque vocês me amam nessa intensidade.
Por
fim, sei que a cada dia que passa vocês perdem um pouquinho mais da energia de
outrora. Sei que vão envelhecendo e isso requer cada vez mais paciência
daqueles que estão à volta. Bom, é verdade, talvez isso aconteça mesmo. Mas
saibam que não importa. Não prometo ser perfeito ou paciente como foram pra mim
durante todo o tempo que precisei, não sou como vocês e não tenho a audácia de
tentar ser, mas prometo que estarei sempre aqui dando o meu melhor. Prometo que
vocês jamais envelhecerão sozinhos e que sempre terão um cara jovem (ou já nem
tanto assim, né?!) pra cuidar e tentar devolver todo o carinho e paciência que
um dia tiveram pra me ensinar tudo que sabiam nessa vida.
Minha
gratidão, minha admiração e meu amor sempre estarão presentes dentro de mim,
mesmo que às vezes eu tenha dificuldade pra dizê-los. Hoje, nessa carta, eu
consegui externar um pouco disso. E que bom! Era o mínimo. Afinal, vocês
merecem ser lembrados por mim desses sentimentos e eu tenho o dever de fazê-lo.
E sejamos francos, quem não gosta de receber amor, não é?!
Obrigado
por terem sido muito mais do que acham que foram. Vocês são a minha melhor definição
de amor. Amo vocês!
Ah,
e se alguém resolveu ler, chegou até o fim e está se perguntando “por que uma
carta aberta?” eu devolvo a pergunta primeiro com uma outra pergunta: "por que não aberta?" e, por fim, com uma resposta que é bem simples: o amor pode e deve ser gritado
para o mundo todo escutar. Afinal, tem coisa melhor que espalhar esse
sentimento?

