Aquele dia chegou. Eu sabia. O
dia que eu perceberia que estou morrendo de saudade. Eu sabia que isso aconteceria
cedo ou tarde, eu só preferia fingir que não estava se aproximando.
Mas hoje eu sei que não é mais
possível desviar os pensamentos. Agora eu já não posso mais olhar para os
lados. Não sei mais fingir que doeu uma dor calculada ou tentar explicar pra
mim mesmo, enquanto fingia explicar para outras pessoas, que é só a ordem
natural das coisas. Que você iria nos deixar eventualmente. Já não sei mais
interpretar esse papel.
Você significou tanto. Você
cuidava de mim mesmo quando eu era uma criança (BEM) chata que só queria a
minha mãe, você me dava carinho pra que eu dormisse enquanto a gente fazia
aquelas viagens no banco de trás do carro indo pra Araruama. Era só você a fazer
aquele sanduiche e Nescau com leite desnatado, onde eu não falava nada, mas
tinha gosto de Nescau com água. Não era bom ou ruim. Era o sabor de estar com
você.
Eu sinto tanto a falta de deitar
na rede e ouvir as suas histórias de como os seus (e meus) ancestrais viveram,
o que faziam e como faziam. Eu prometi pra mim mesmo que quando voltasse, eu ia
pedir pra escutar todas aquelas histórias de novo. Eu voltei tarde demais.
Eu sinto falta de saber sobre aquele
livro da nossa família que você estava escrevendo e nunca terminava. Não havia
de terminar, certo? Nossa história nunca terá fim. Somos todos extensões uns
dos outros. Somos a verdadeira definição de família. Eu sempre soube. Você
sempre me ensinou isso sem nunca precisar proferir tal frase.
Hoje eu me culpo por não ter
estado ao seu lado nos seus últimos dois anos. Mas como eu podia imaginar? Eu
sinto que tem tanta coisa que não pude te contar. Tanto que eu gostaria te
mostrar sobre mim. Queria te mostrar o quanto eu mudei, mesmo que no fim você
me olhasse com aqueles olhos de que eu serei sempre aquele mesmo netinho que se
sentia o seu favorito. Eu queria compartilhar tudo que aprendi nesses quase
dois anos em que estivemos separados.
Você sabia que a minha estadia no
Senegal me tornou um especialista em comer frango com as mãos? Hoje em dia eu
sou capaz de deixar só o osso mesmo, daquele jeito que você fazia. Quer dizer,
aposto que melhor que você hoje em dia. Ficaria orgulhosa que eu sei. Te
conheço. O lado ruim é que meus restos de frango já não seriam mais
aproveitados por você. Pois é, sinto muito. Eu melhorei muito meu francês
nesses dois anos que passaram, sabia? É, eu lembro que você morria de orgulho,
mesmo eu tendo vergonha de falar quando você pedia. Pois agora saiba que eu
falo realmente fluente e sei cantar um monte de música também. Algumas você
nunca ouviu falar. Melhor assim, pois é um monte de rap cheio de palavrão
(amizades complicadas, vó, amigos desbocados).
O fato é que eu queria ter te
visto mais, te abraçado mais, me unido ao meu tio debochado de você durante o
almoço mais vezes, quando você só tinha a minha mãe pra te proteger, mas só
depois que ela parasse de rir das nossas piadas, claro. É, você estava quase
sozinha nessa empreitada de almoço. Eu queria ter feito você rir até perder o
ar, ter que implorar pra cessarmos as piadas por alguns instantes. Eu queria
ter discutido mais com você, dado meus pontos de vista intermináveis até que
você me chamasse de chato e começasse a ignorar meus BONS argumentos, diga-se
de passagem. Chegar em casa e te ver recostada naquela poltrona enquanto
passava algum jogo chato do Vasco ou uma novela nada interessante.
A verdade é que o buraco que
ficou no meu peito nunca vai cicatrizar. Mas sabe de uma coisa? Eu fico feliz
por isso. Eu morro de saudade. Eu vou morrer de saudade sempre. Esse buraco não
vai fechar, mas eu vou aprender a viver com ele dentro de mim. E nele eu terei
todas as suas memórias, seus sorrisos, seus elogios e carinhos. Você foi muito
mais que uma avó, você foi um amor daqueles que parece uma brisa de primavera
em um fim de tarde alaranjado. Aquela sensação leve que beija a nossa alma e
nos dá nada além da certeza de que somos a pessoa mais sortuda do mundo.
Te amo.
Com lágrimas, seu neto.

