quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ela se foi

Ela se foi. Pela noite, pois ninguém podia ver. Ela se foi às 3h, no horário que foi ensinada a sentir o terror de ser.

Será que escutaram sua alma chorar vazia? Ela nunca soube, o som de madeira antiga arranhando na sua memória sempre a ensurdecia.

Por além das fronteiras daquela cidade encontrou a solidão que nunca procurou. Ela abraçou o inferno. Ela rezou.

O lúgubre a beijava com o sabor amargo do desespero. Aos oito fugiu um mês depois de apodrecer o corpo por inteiro. O carinho doce de seu pai a infectara interrompendo seu sono. envenenou sua alma enquanto a aquecia do frio de outono.



Nunca mais conseguiu se olhar. Mesmo quando o espelho apontava uma mulher, ela aprendera a não acreditar. Nem confiar. Aquela imagem que via não sabia chorar.

Mergulhou onde queria. Mergulhou em um apanhado de agulhas vazias. Beijava seus demônios em viagens de agonia. Em todas ela o via. Revisitava o mesmo quarto da noite que sucumbia. Ela provava repetidamente a pele fria.

Encontrou a saida que sempre procurou. Um último abraço em si. Ela se desculpou pelo que se causou. Nada mais poderá ferir. Nada pode machucar uma existência interrompida. A última mensagem ficará escrita em uma parede perdida: “Você me exterminou muito antes que eu tirasse a minha vida”.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

CARTA ABERTA ÀQUELES QUE DEVO A MINHA VIDA; OS MEUS PAIS

Eu venho por esse documento tentar alcançar um único objetivo, do qual, no fim das contas, já desconfio de que não conseguirei como gostaria. No entanto, tentarei mesmo assim.

O que quero aqui, Orlando e Valéria, é expressar toda a gratidão por tudo que são pra mim, desde a minha primeira respiração. Hoje, depois de estar um pouco mais velho, quase com meus trinta anos, vejo o que alguns de nós levam a vida toda pra ver: nós crescemos sem perceber.

         Eu, por exemplo, cresci sem perceber o amor incondicional que vocês sentem por mim e sempre sentiram. Cresci sem perceber que o “não” que vocês falaram para me ensinar a ter limites ou respeito rasgava o coração, principalmente se eu ficasse triste, pois aí é que vocês morriam por dentro. Cresci sem perceber que vocês parariam o mundo se pudessem, só pra me agradar. Cresci dessa vez não sem perceber, mas sim sem saber, quantas vezes vocês foram pacientes ao trocarem as minhas fraldas, ao levantarem no meio da noite só pra me fazer parar de chorar, a paciência necessária para me ensinar a falar, andar, a contar, as cores, etc. A dedicação a sanar todas as incontáveis dúvidas, perguntas e questionamentos que eu incansavelmente fazia durante a minha infância (e talvez ainda continue fazendo, rs).

            Mais tarde, a enfrentar todas as frustrações na escola, no futebol, entre amigos, inseguranças e medos frente aos desafios que se seguiram. E durante a aventura (talvez loucura) de ir completamente sozinho para morar tão longe de casa perseguindo um sonho, ficarem horas comigo no telefone todos os dias durante longas noites para que eu pudesse me sentir mais seguro e menos solitário. Com o coração dilacerado, me verem chorar copiosamente, dessa vez já um jovem adulto, por estar mais uma vez voando para longe de casa. Aguentarem firme e não me pedirem pra ficar e, ainda assim, serem doces o suficiente pra me deixarem saber que eu poderia ficar (ou voltar) quando quisesse. Sofrerem calados com as minhas más escolhas e se questionarem em até que ponto deveriam intervir ou me deixar que eu desse os próprios passos rumo aos próprios erros e acertos.



Vocês abraçaram os meus sonhos e acreditaram mais em mim do que qualquer outra pessoa jamais faria, possivelmente até mais do que eu mesmo. Deram-me o direito de tentar, o direito de ser feliz. E eu nem imagino o quanto isso seja difícil. Jamais conseguirei. É muita dedicação. É muito amor. Tem que ser!
           
         O mais incrível é que vocês nunca fizeram nada disso esperando algo em troca. Jamais! Tudo foi feito pelo mais puro e verdadeiro amor do qual eu sinto um misto de alegria e constrangimento. Alegria essa por saber que ninguém no mundo poderia ter mais sorte do que eu. Ninguém pode ser amado tão intensamente como fui durante todos os meus dias vividos até aqui. E constrangimento pelo mesmo motivo. Constrangimento também por saber que, por mais que eu me esforce, não conseguirei demonstrar tudo aquilo que vocês são pra mim. A referência, o porto seguro e o combustível necessário para que eu queira sempre seguir em frente.

        Já morei longe de casa algumas vezes. Vocês dirão MUITAS vezes, se perguntados. Afinal, já estive e estou muito mais tempo e em bem mais ocasiões do que vocês gostariam e até imaginariam me ver longe. E talvez não saibam, mas o maior motivo de eu ter essa coragem toda pra “voar”, como você, mãe, costuma a dizer, seja justamente esse amor. É por saber que vocês estão aí pra mim, me esperando de braços abertos sempre que eu quiser voltar, que tenho forças pra ir desbravar o mundo e tentar merecer o meu lugar nele. Paradoxalmente, eu só me afasto com essa frequência porque vocês me amam nessa intensidade.



         Por fim, sei que a cada dia que passa vocês perdem um pouquinho mais da energia de outrora. Sei que vão envelhecendo e isso requer cada vez mais paciência daqueles que estão à volta. Bom, é verdade, talvez isso aconteça mesmo. Mas saibam que não importa. Não prometo ser perfeito ou paciente como foram pra mim durante todo o tempo que precisei, não sou como vocês e não tenho a audácia de tentar ser, mas prometo que estarei sempre aqui dando o meu melhor. Prometo que vocês jamais envelhecerão sozinhos e que sempre terão um cara jovem (ou já nem tanto assim, né?!) pra cuidar e tentar devolver todo o carinho e paciência que um dia tiveram pra me ensinar tudo que sabiam nessa vida.

       Minha gratidão, minha admiração e meu amor sempre estarão presentes dentro de mim, mesmo que às vezes eu tenha dificuldade pra dizê-los. Hoje, nessa carta, eu consegui externar um pouco disso. E que bom! Era o mínimo. Afinal, vocês merecem ser lembrados por mim desses sentimentos e eu tenho o dever de fazê-lo. E sejamos francos, quem não gosta de receber amor, não é?!

     Obrigado por terem sido muito mais do que acham que foram. Vocês são a minha melhor definição de amor. Amo vocês!

       Ah, e se alguém resolveu ler, chegou até o fim e está se perguntando “por que uma carta aberta?” eu devolvo a pergunta primeiro com uma outra pergunta: "por que não aberta?" e, por fim, com uma resposta que é bem simples: o amor pode e deve ser gritado para o mundo todo escutar. Afinal, tem coisa melhor que espalhar esse sentimento? 

Ass: Um filho apaixonado e que hoje percebe. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Onde foi parar?

Onde está aquele sorriso leve e cheio de vitalidade do ex-futuro astronauta e primeiro homem a pisar em Marte? Em qual caixa esquecida embaixo de entulhos em um porão sujo e não visitado foi parar aquele livro que o inspirava a ser quem sempre quis se tornar?

Não há saídas laterais no corredor da vida, você também sabe, não sabe? Você, ao menos, também segue em frente. O amadurecimento (é assim mesmo que devemos chamar?) transforma sonhos tolos em projetos concretos. Dilacera objetivos vãos para dar espaço às conquistas profissionais. Para dar espaço ao sucesso. Sucesso? É isso que perseguimos, então? É esse conceito vago e submetido às interpretações convenientes de uma indústria cultural viciada que é responsável por guiar os dias intermináveis de curtos anos? É lá aonde chegaremos e repousaremos sentados no desafogado trono ao topo da montanha de engodos há muito alimentada?



Aquilo que se persegue com tanta fibra e com a apaixonada ilusão de estar no controle de algo, nem que seja das próprias escolhas, reflete a imagem cinza e turva da única verdade acessível, pelo menos enquanto ainda se vestir com essas correntes: a existência é a escravidão do que queremos ser.

Qual é o rumo, então, da frágil brisa que sutilmente passa, dando rugas e fios brancos que vem por descolorir as estruturas antes alimentadas por desejos simples e sorrisos sinceros? Ao fim do caminho tortuoso e ímprobo, o que terá no baú é realmente aquilo que se procurava? Terá, ao menos, o baú?

 Não faz diferença. Ninguém vai saber. Certo? Talvez, nem nós mesmos. Mais um motivo para nutrir aquilo que, nessa altura, já se tornou a espinha dorsal da nova realidade. Mais uma desculpa para abraçarmos aquilo que sucumbimos a nos tornar. Talvez estejamos fadados a sermos, mesmo, aquele que gera sorrisos e admiração a todos à nossa volta.. e só.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A magia de viajar pelo mundo.. e na pluralidade das pessoas

Histórias de alguém que gosta de viajar, mas que ama mesmo conhecer pessoas

                Conhecer, descobrir, explorar, aprender.. Quantas maravilhas somos capazes de acumular quando decidimos colocar nossa trouxa debaixo do braço e partir numa aventura? Quando viajamos para o desconhecido e mergulhamos em lugares que nunca sonhamos estar, podemos acabar por conhecer pessoas que jamais teríamos a oportunidade se não ousássemos sair da nossa cômoda e agradável zona de conforto.

                Como todo bom ser humano, eu adoro minha zona de conforto, minha caminha quentinha, aquela rotina controlada de um trabalho agradável e programas com os amigos de sempre nos fins de semana. Somos todos um pouco Buchecha e adoramos controlar o calendário sem utilizar as mãos.

                A questão aqui é: quanta coisa estamos deixando passar enquanto a vida passa? É claro que não é possível experimentar todas as sensações do mundo ou visitar todos os pequenos vilarejos desse planeta tão enorme. Mas por que não uma aventura de vez em quando? E o foco aqui não é nem o de visitar castelos ou museus, ainda que seja uma ideia elegantemente atraente. Mas que tal visitar pessoas dos mais diferentes lugares? Que tal aprender através das lentes que cada um utiliza para enxergar o mundo? Se colocar no lugar dessas pessoas e apreciar suas percepções do que é a vida.

            Quanto mais viajamos de carona na maneira com a qual essas pessoas entendem os fatos, acontecimentos e a história da nossa existência, do mundo e por que estamos onde estamos, começamos a perceber que a forma como vemos o mundo é só mais uma versão descartável que muito mais se parece com uma mera opinião que necessariamente com a verdade. A cada dia temos menos razão e mais motivos para não procurar por apenas uma.

          Afinal, o que seria do mundo se ele fosse construído apenas pelos estereótipos que fomos ensinados a criar ao longo da vida? Não há comportamento “padrão” ou “certo”, muito pelo contrário. E eu diria que a pluralidade merece mesmo é um brinde!


        O que seria de mim se não tivesse conhecido um casal de romenos onde um é engenheiro de software e a outra quase mestre em psicologia e extremamente inteligentes e honestos, diga-se de passagem, me explicassem que em diversos lugares pela Europa as pessoas param de respondê-los e escondem as carteiras quando descobrem que são da Romênia? Ou se não sentasse na mesma mesa de bar com três polonesas e percebesse que elas são imbatíveis em misturar vodka, uísque, cerveja e todo o resto que possua álcool e continuarem agindo sobriamente como se estivessem à base de água e refrigerante. Eu não seria tão feliz se não tivesse conhecido um eslovaco que me explicou que no Natal a história que se conta para as crianças do seu país não é a do Papai Noel levar presentes num trenó, mas sim uma espécie de bebê Jesus a fazer a função (?). Sim, não me pergunte como também. Sem dúvidas eu não seria tão apaixonado pela vida se não tivesse conhecido o rapper croata que pede paz para os idosos do seu país e que parem de odiar os sérvios. Nem se eu não tivesse conhecido as eslovenas que se orgulham imensamente de terem honestos 47km de litoral no país e ainda fazem piada com o amigo eslovaco, pois esse não tem. Ou aprender que húngaros e romenos são rivais diretos no futebol e na vida, uma versão temperada de Brasil x Argentina no leste europeu.

                As histórias são intermináveis e os aprendizados são incríveis. Desde a oportunidade de um debate sério sobre política com um francês que fala seis línguas, até uma diversão incrível de ver uma adorável portuguesa imitar o meu sotaque brasileiro (e carioca) com perfeição ao cantar “empreguete”.

         Viajar é bem mais que conhecer lugares, climas ou comidas. Viajar é também conhecer opiniões, costumes, risadas, jeitos de dançar, de olhar e de se divertir. Viajar é olhar pra dentro de si mesmo sem medo do que vai encontrar e perceber o maior segredo que a cultura costuma a esconder: “somos todos diferentes entre nós”. Ninguém é, precisa ou deveria tentar ser igual ao outro. Na verdade, essa pluralidade aparentemente infinita de pequenos traços de personalidade em cada um de nós, deixa a vida bem mais apaixonante.


                E aí, que tal tentar conhecer o mundo e acabar descobrindo a si mesmo?