segunda-feira, 20 de junho de 2016

22 de outubro, o drink e o homem de negócios

                 

Era só mais um dia. Havia de ser. O homem caminhava na calçada gelada que refletia as taciturnas luzes dos postes em poças de água escura. Esgoto costumava a ser o melhor nome. O caminhar é ligeiramente apressado e a pasta e o cigarro em cada uma das mãos só poderiam significar o que todo mundo já sabia; ele era um homem de negócios.


Os becos escuros não o assustavam. Não mais. Talvez por ter passado noites demais pelas calçadas que os precedem. Ou talvez porque não soubesse a sedução perigosa que esses pequenos universos atraem para si. Não havia segurança, ele sabia. Mas nunca se sentiu seguro, de qualquer forma. Seu chapéu, sobretudo e sua face austera eram carcaça suficiente para desencorajar a aproximação aproveitadora de qualquer outro. Era seu escudo contra uma sociedade falida. Mas era mais que isso. Era seu disfarce de si mesmo. A comprovação miserável que falhou na missão de se tornar quem sempre deveria ter sido. Engolido pela (in)felicidade do tudo e sucumbido pelos valores que nunca desejou ter.

Era somente 22 de outubro. Não havia um motivo especial, mas o drink que pensava repetidamente em tomar era outra de suas ferramentas para não submeter-se à desgraça que assola qualquer ser pensante. Era isso mesmo? Ele esperava de ter razão. “Um brinde à liberdade”. Era assim que encarava relacionamentos baratos em estruturas desgastadas. Era assim que enfrentava os demônios de Sartre; os outros.

A porta do bar havia o mesmo sino desde quando pudera se lembrar. Era o som da vitória da melancolia da alma sobre a coragem de se encarar no espelho antes de dormir. De alguma maneira ele sabia que aquilo que o libertava, também o envenenava. Ele já pensou em escapar de tudo que lutou para ter, é claro. – “Quem nunca?”, pensava. Gostava de imaginar que todos eram iguais a ele, pelo menos em algum momento. O pensamento causava conforto e repulsa.

O cheiro da madeira foi tardiamente percebido. Um aroma preciso e determinado. Era uma experiência olfativa corriqueira e, até certo ponto, apareceria em melhor hora que o sorriso desconhecido e desesperado ao lado que, insistentemente, puxava assuntos vazios para que pudesse discursar sobre si mesmo na primeira oportunidade. – “É isso que fazemos”, ele sabia. Ouvimos os outros com o intuito de que chegue a nossa vez de falar. Por isso estamos condenados. Condenados a nos tornarmos uma borrada projeção de nós mesmos.

Era só mais um 22 de outubro. Afinal, todos os dias eram 22 de outubro. Que diferença fazia? Que diferença sempre fizera? Ele sabia das amarras invisíveis de si. Conhecia boa parte delas. Ele, talvez, as odiasse. Ele, possivelmente, amava odiá-las. Mas, sem dúvidas, ele as amava. Era tarde demais para que não as amasse Elas eram tudo aquilo que restou. Elas eram a melhor definição de seu sucesso. Mas só segundo os outros.

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